A travessia

04:02

- Uma vez dentro, após o teste, a pessoa não muda, não achas?
- É verdade, e creio que esta nota vale apenas para entrar, depois é esquecida.
- Não é justo. Então qual é o ponto disto se estamos imageshabituados a estudar apenas antes das provas e quando aprovamos continuamos a ser o estudante preguiçoso, mediano ou mesmo, e em poucos casos, inteligente de sempre? Não é meramente uma selecção aleatória, esta?
- A contar com o facto de, perante uma prova complexa, parecermos todos iguais: tensos e nervosos. Até parece uma escolha de acaso. Embora não mudemos, aprovando ou não, acho que fica a lição, a experiência…
Uma multidão murmurante e ilhada, na sua maioria jovens abaixo dos vinte e cinco anos, caminhava pelo passeio ao lado da estrada rumo a próxima paragem de táxis. Eram raras as vezes que Benguela evocava na memória as megacidades com ruas abarrotadas de gente todas as manhãs. Não era imperceptível o trânsito naquela via. As ideias não diferiam muito entre cada grupo, pois todos acabavam de executar os mesmos duros passos na travessia do mar académico, antes avistado no horizonte, que um tal Moisés em função da fé, testemunhada nos papiros que cada um preencheu hoje, sentenciará quem poderá pisar no outro lado do mar.
- Não acredito que depois disto ninguém pós a mão na cabeça para pensar na sua vida. Eu vi o meu futuro passar bem na minha cara – disse, ainda indignado e reflexivo, Maurício.
- Sim, hoje juntamos o passado ao presente e ficamos com uma ideia do que será o ano inteiro. Lembro-me dos dias de preparação, não foram nada fáceis. Quanto mais distante da data de hoje menos eu estudei, procrastinava, programadamente me desculpava sobre a matéria, local para estudar e assistia muito a televisão. Mas todo esse tempo a consciência cobrava o sacrifício de algumas horas. Mudei meus hábitos quando, já em Dezembro na primeira quinzena, “miraculosamente” instalaram a electricidade no meu bairro. Desliguei-me de tudo e de todos, por azar que na altura virou sorte perdeu-me o meu precioso telemóvel. Estudei dia e noite, colei postites na porta, na parede e nos móveis, risquei vezes sem conta no meu quadro branco, redes sociais a parte estudei pela internet. Com algumas auto-sabotagens lá consegui estar a par de todas as matérias. Nunca realizara tamanho sacrifício. – contou Pedro
- Olha, fiz de tudo um pouco. Acho que estava mais preparado para o curso cujo teste perdi, por ter calhado a mesma hora. Não fiz grande coisa mas espero a nota mínima para aprovar. Até porque durante a prova reagi com maturidade ante aos exercícios difíceis.
- Eh, Maurício. A nossa postura, nesse aspecto contou muito para o êxito. Na bateria a que fui submetido veio um exercício de expressão algébrica difícil, parecia-se mais com uma aranha, pelos “xizes” e “ipsilons” uns ao quadrado e outros não, tanto no numerador como no denominador. Confesso que fiquei no duvidoso segundo passo.
“Lobito, Lobito, num vamos?” era o cobrador de táxi a fazer o seu incansável trabalho. Ainda era possível observar tristeza e alegria nos rostos dos quiçá universitários que marchavam cidade adentro e outros que, como nossos amigos Maurício e Pedro, tomavam o táxi.
Já lá se iam quatro anos lectivos partilhados, com eles uma amizade franca e aberta, ameaçada por esta “injusta selecção” mas isso pouco lhes afectaria, pois, vêm de meios sociais onde a escola da vida endurece o coração na mais tenra idade.
- Epa meu, juntos!
- Ta fixe. Té mais
Osvaldo Sakamana
15/02/2013

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