a maior dor mundo
13:00Foste. Deixou de estar aqui a representação material da sua idéia. Agora é impossível pensar-te fora do próprio pensamento. Agora só existes enquanto eu existo pois, apenas sobrou a tua parte de mim, aquela que me reconfortava uma alegria passageira quando desconseguiamos estar juntos. Agora dói acreditar que tudo que tenho é esse teu pouco em mim. Esses dias, afinal, me embalaram, me negaram a amar o teu silêncio, a conversar com o teu lugar vazio. Estarias sempre aqui, posso jurar. Estava escrito, com as letras dos dias, na certeza das minhas intenções que estarias sempre aqui.
Era irresistível aquela tua cor de línguas de fogo qual vestido feito do melhor pôr-do-sol. Não fazes idéia do prazer que sentia quando caminhavas, elegante, na minha direção para com beijos de tortura, retirares os grãos de milho da minha mão. Hoje, tarde infelizmente, entendo que causavas-me aquelas dores de propósito, era um treino a dor maior que viria sentir. Eras a galinha matreira no grupo: esses pânicos diários na capoeira que facilmente acalmavas; esses galos que punhas na linha e punhas mesmo; aquele cacarejar de comedouro vazio que só você sabia; aquela pontualidade com que punhas os ovos.
As tuas coadjuvantes nada mais saberão ser. O teu lugar vazio, longe de ser preenchível, não será assimilado assim de repente. Perderam sentido as terapias que se tornaram rituais, de reunir comigo mesmo na tua companhia, a olhar-te através da rede, de pé, sem ver-te. Inerte me instalava no lado de fora da capoeira, as vezes mais de uma vez ao dia, ouvia os teus cacarejos sobre o poleiro, e mergulhava em meditação. Eras, nessas viagens mentais, a última coisa que via e a primeira que confirmava aos meus sentidos o regresso a realidade. Eras o meu portal. Assumo que tenhas ido meditar, que tenhas perdido os sentidos para eu ser o primeiro a vires quando voltares. Que portal terás usado? Que portal? Pergunto-me.
Não pôde dizer-te chau. Não pôde. Minha galinha querida. A tua memória, embora fragmentada. Esse teu pedaço em mim, existirá enquanto eu existir.
Osvaldo Gomes
0 comentários