balanço

08:54

por do sol da catumbelaTrês dias já passam deste, e por balançar o ano anterior ainda estou. Culpo, a este nível, a correria e, principalmente, o retraimento de escrever – e não é recente essa apatia. Poucas, senão nenhuma, foram as vezes que sentei para exaustivamente relatar o ano. Limitava-me a programar o futuro e abandonar o passado, mas agora sou impelido pelo estado actual das «minhas» coisas. Embora possa viciar a introspecção, dada a mais recôndita identidade auto-atribuída ou o meu posicionamento nato e próprio à certas questões.

Muito aconteceu, no plano prático e abstracto, durante as três centenas de dias três dias atrás. Coisas que não foram necessariamente boas nem más, dependendo, essa rotulação, do meu contexto espaço-tempo que variou muito ao longo desse tempo.

Depois de uma tentativa sem êxito, Janeiro do ano passado foi um mês de guerra para ingressar a universidade pública nacional. Estudei, com uma certa disciplina, até a exaustão para estar em altura à exigência do teste de aptidão. A 7 de Março aconteceram os baptismos e a 11 começaram as aulas. Ante a realidade que se me apresentava, a minha espectativa quanto ao ensino superior foi reconfigurada pela negativa. Houve oportunidade para concorrer a bolsa de estudo interna. Sem sucesso.

Pelo horário da escola, era-me possível trabalhar, e cuidei de procurar emprego porem com certa irregularidade, motivada pelo receio de sacrificar o rendimento escolar, e também, pela complexidade do processo de busca. E assim vivi na espectativa – e a corroer-me a alma, naquele ano, estavam a ansiedade e a dúvida no campo religioso. A seguir me explico.

Foto1042Sou marcado de espectativas (talvez não seja propriamente o nome) desde a adolescência, brincava de “faz de conta” tivesse o que teria, fosse o que o que seria, e as vezes fizesse o que faria dias por vir: esperei por bicicletas cada vez que passasse de classe – que as vezes vinham; esperei por explicações – que compreendo como metafísicas, hoje – ante à complexidade circundante; Esperei pela garantia de fazer a universidade no exterior, como os colegas, na altura. Assim, a consciência da espera se formatou. De outro modo não reagi senão aos caprichos do inconsciente expectante e, por conseguinte, passivo.

Mesmo assim, engajei-me em projectos como o da republicação de um boletim informativo de uma ONG que por certas razões desvaneceu. Apesar de, até agora, ser desprovido de iniciativa política – o que pode contradizer com o facto de ter sido chefe de turma em todos anos de escolaridade, inclusive agora - participei numa campanha eleitoral da associação de estudantes da universidade da qual vencemos. E o projecto que não temeria perder a vida por ele, o da escrita, esse que me move ao construir estas linhas, decorreu a impulsos irregulares. Escrevi mais do que anteriormente mas ainda muito abaixo do que almejo – um hábito diário. Estatisticamente foram uns nove testos para três confusos blogues, um capítulo quase completo de uma estória do estilo fantástico. Hoje sei que o processo literário tem que ver também com a leitura ávida e, nesse capítulo tive melhor. Comprei cerca de vinte e dois livros, emprestaram-me uns seis Tentativa de escritae li todos, menos cinco – meu recorde de sempre, mais de um livro por mês - , à mencionar os transparentes, cem anos de solidão, Jaime Bunda e a morte do americano, outliers, a desilusão de Deus (sim, o livro de Richard Dawkins, mesmo, um dos mais altos ateus contemporâneos. Falarei um pouco do impacto deste último). As causas dessa baixa performance são várias e já estou a tratar de combate-las.

Sem me expor tanto, aconteceu que a questão existencial atingiu o ponto de ebulição e fervilhava à consciência. Procurei questionar as bases que sustentavam as minhas crenças. Assisti aos mais intelectuais e polémicos debates sobre evolucionismo versus criacionismo, como Christopher Hitchens (biólogo ateu) contra Willian Lane Craig (filósofo cristão) – os cito de cor – no youtube. Devorei a inteligente obra citada acima, li o em busca de um Deus para amar de Chris Blake. Confrontei com o que me incutiram, com o que eu próprio pensava, e a resposta, até agora, é um aprendizado constante, mas mais uma teoria que a outra.

(continua)

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